Há-de flutuar uma cidade



há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida 
pensava eu... como seriam felizes as mulheres 
à beira mar debruçadas para a luz caiada 
remendando o pano das velas espiando o mar 
e a longitude do amor embarcado 

por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava 
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite 
os dias lentíssimos... sem ninguém 

e nunca me disseram o nome daquele oceano 
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas 
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua 
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar 
se espantasse com a minha solidão 

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.) 

um dia houve 
que nunca mais avistei cidades crepusculares 
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta 
inclino-me de novo para o pano deste século 
recomeço a bordar ou a dormir 
tanto faz 
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Ricordo il momento incantato: davanti a me tu sei apparsa, come una fuggitiva visione, come il genio della pura bellezza.
Nelle angustie di una disperata tristezza, negli scompigli della rumorosa vanità, risuonava a lungo in me la tenera voce, e sognavo i cari lineamenti.
Sono passati gli anni. L'impeto ribelle delle tempeste ha disperso i sogni di un tempo, ed io ho dimenticato la tua tenera voce, i tuoi lineamenti celesti.
Nella solitudine, in una tenebra di carcere si trascinavano cheti i miei giorni senza un dio, senza ispirazione, senza lacrime, senza vita, senza amore.
All'anima è stato dato il risveglio: ed ecco di nuovo tu sei apparsa, come una fuggitiva visione, come il genio della pura bellezza.
E il cuore batte nell'ebbrezza, e per il cuore sono risorti di nuovo e il dio, e l'ispirazione, e la vita e le lacrime e l'amore.


De Longe Te Hei-de Amar



De longe te hei de amar,...
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo a constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?
E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,

alheia à transparência.

O Outro Pé da Sereia



"A viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar."


Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida:



"Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminho caprichoso, para além de um profundo oceano de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero.
Primeiro busquei o amor, que traz o êxtase - êxtase tão grande que sacrifica o resto de meus dias por umas poucas horas desta alegria. Procurei-o também porque abranda a solidão - aquela terrível solidão que a consciência horrorizada observa, da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que afinal consegui.

Com igual paixão, busquei o conhecimento. Desejei compreender os corações dos homens. Desejei saber porque as estrelas brilham. E tentei aprender a força pitagórica pela qual o número se mantém acima do fluxo. Um pouco disso, não muito, conquistei. Amor e conhecimento. Até onde foram possíveis, me conduziram aos caminhos do paraíso.

Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à terra. Ecos de gritos de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos - odiosa carga para seus filhos - e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor, transformaram em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Isso foi minha vida. Achei-a digna de ser vivida e vivê-la-ia de novo com a maior alegria se tal oportunidade me fosse oferecida."

Bertrand Russell, In: Autobiografia de Bertrand Russell 

Se tanto me dói que as coisas passem



"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem."

A arte de perder



A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.