Os homens, por mais irrefletidos que sejam, sempre tiveram compaixão dos animais porque sofrem com a vida e não têm a energia necessária para voltar contra si próprios o aguilhão da dor e compreender o sentimento metafísico de sua existência; um sofrimento sem sentido encerra algo profundamente revoltante. É por isso que em diversos locais da terra vimos surgir hipóteses segundo a qual as almas dos homens culpados entrariam em corpos de animais e esse sofrimento absurdo e revoltante tomaria logo, pois, diante da justiça eterna, o sentido e o significado de uma expiação, de um castigo. Na verdade, é um duro castigo essa vida animal, dividida entre a fome e o desejo, especialmente se nela não descobrirmos qualquer sentido; e não podemos imaginar sorte mais penosa do que a da fera que no deserto carrega esse tormento que corrói mais que qualquer outro, uma fome raramente saciada e cuja satisfação é acompanhada de dor, seja na luta sangrenta com outros animais, seja na voracidade repugnante e na excessiva gula. Manter a vida nesse caso, agarrar-se a ela cegamente, loucamente, na ausência de qualquer ambição superior, longe de saber que se sofre um castigo, nem por que se é punido, mas na estupidez de um terrível desejo procurar esse castigo como uma felicidade, isto é o que é ser animal; e quando vemos a natureza inteira se acercar do homem é que ela procura dar-lhe a entender que ela necessita de ser libertada da maldição da existência animal e que é o homem que é o espelho que a natureza se estende a si mesma e no qual a vida deixa de parecer sem sentido e assume seu pleno significado metafísico.