Obsessão



Os bosques para mim são como catedrais,
Com orgãos a ulular, incutindo pavor...
E os nossos corações, - jazidas sepulcrais,
De profundis também soluçam, n'um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh'alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
É um riso semelhante ao do soturno mar.
Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téia,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares.
Os entes que perdi, - espectros familiares!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

(...)
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Coisas tuas



Levo coisas tuas
para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso...

Livro do Desassossego



“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (...) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

Marineti Acadêmico



Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.


Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...

Les Feuilles Mortes


Oh! Eu quero que você lembre-se como
Os dias eram felizes quando éramos amigos.
Naqueles dias, a vida era bela,
E o sol mais quente do que hoje.
As folhas mortas coletadas com a pá
Você vê, eu não me esqueci ...
As folhas mortas coletadas com a pá,
Lembranças e arrependimentos também
E o vento do norte os carrega
Na fria noite do esquecimento.
Você vê, eu não me esqueci
A música que você cantou para mim.

Esta é uma música que nós gostamos.
Você, você me amava e eu te amava
E nós vivíamos os dois juntos,
Você que me amou, eu que te amei.
Mas a vida separa aqueles que se amam,
Lentamente, em silêncio
E o mar apaga na areia
Os passos dos amantes desunidos.

As folhas mortas coletadas com a pá,
Lembranças e arrependimentos também
Mas o meu amor silencioso e fiel
Sempre sorri e agradece a vida.
Eu te amei tanto, você estava tão bonita.
Como você acha que eu vou esquecer?
Naqueles dias, a vida era mais bonita
E o sol mais quente do que hoje.
Você era minha doce amiga
Mas eu lamento que nada regressará
E a música que você cantou,
Sempre, sempre vou ouvir!