O habitante (ao meu pai)



Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.
Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.
No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.
Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.
Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.
Os lugares que buscaste
não têm geografia.
São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

Se eu partir



Abre cuidadosamente 
meu testamento
deixo-te as hastes 
que emolduram meus olhos
as conchas do oceano
os búzios sonoros
algumas pedras luzidias da calçada
a chávena de café às riscas serpenteada
um livro ou dois à tua escolha
por mim em cada folha sublinhada
a boneca de cerâmica
vestida de cetim e cara de fada
a pulseira africana feita numa palhota
o colar de pérolas cor de jasmim
uma máscara veneziana
o cristal lá da entrada
o perfume mais exótico
a borboleta a fingir
a lanterna de uma só vela
o castiçal cor de coral
a planta de folha larga
a mesa preta de bambu
o dicionário de francês 
o astrolábio português
a cortina do segredo
bem amado
a caixinha de madeira
os favos de mel
o saquinho de alfazema
de cheiro a lavanda seca
o porquinho mealheiro
mesmo não tendo dinheiro
a almofada de feno
guardadora de sonhos
o vestido longo
bordado inglês
o quadro da magnólia
a foto de mim pequena
a vista para o mar
o sussurro do meu anjo
a máquina de fotografar
a doçura de ser
o enorme desejo de viver...

Há-de flutuar uma cidade



há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida 
pensava eu... como seriam felizes as mulheres 
à beira mar debruçadas para a luz caiada 
remendando o pano das velas espiando o mar 
e a longitude do amor embarcado 

por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava 
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite 
os dias lentíssimos... sem ninguém 

e nunca me disseram o nome daquele oceano 
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas 
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua 
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar 
se espantasse com a minha solidão 

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.) 

um dia houve 
que nunca mais avistei cidades crepusculares 
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta 
inclino-me de novo para o pano deste século 
recomeço a bordar ou a dormir 
tanto faz 
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Ricordo il momento incantato: davanti a me tu sei apparsa, come una fuggitiva visione, come il genio della pura bellezza.
Nelle angustie di una disperata tristezza, negli scompigli della rumorosa vanità, risuonava a lungo in me la tenera voce, e sognavo i cari lineamenti.
Sono passati gli anni. L'impeto ribelle delle tempeste ha disperso i sogni di un tempo, ed io ho dimenticato la tua tenera voce, i tuoi lineamenti celesti.
Nella solitudine, in una tenebra di carcere si trascinavano cheti i miei giorni senza un dio, senza ispirazione, senza lacrime, senza vita, senza amore.
All'anima è stato dato il risveglio: ed ecco di nuovo tu sei apparsa, come una fuggitiva visione, come il genio della pura bellezza.
E il cuore batte nell'ebbrezza, e per il cuore sono risorti di nuovo e il dio, e l'ispirazione, e la vita e le lacrime e l'amore.


De Longe Te Hei-de Amar



De longe te hei de amar,...
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo a constância.
Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.
Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?
E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,

alheia à transparência.

O Outro Pé da Sereia



"A viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar."


Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida:



"Três paixões, simples mas irresistivelmente fortes, governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade. Essas paixões, como os fortes ventos, levaram-me de um lado para outro, em caminho caprichoso, para além de um profundo oceano de angústias, chegando à beira do verdadeiro desespero.
Primeiro busquei o amor, que traz o êxtase - êxtase tão grande que sacrifica o resto de meus dias por umas poucas horas desta alegria. Procurei-o também porque abranda a solidão - aquela terrível solidão que a consciência horrorizada observa, da margem do mundo, o insondável e frio abismo sem vida. Procurei-o finalmente, porque na união do amor vi, em mística miniatura, a visão prefigurada do paraíso que santos e poetas imaginaram. Isso foi o que procurei e, embora pudesse parecer bom demais para a vida humana, foi o que afinal consegui.

Com igual paixão, busquei o conhecimento. Desejei compreender os corações dos homens. Desejei saber porque as estrelas brilham. E tentei aprender a força pitagórica pela qual o número se mantém acima do fluxo. Um pouco disso, não muito, conquistei. Amor e conhecimento. Até onde foram possíveis, me conduziram aos caminhos do paraíso.

Mas a compaixão sempre me trouxe de volta à terra. Ecos de gritos de dor reverberam em meu coração. Crianças famintas, vítimas torturadas por opressores, velhos desprotegidos - odiosa carga para seus filhos - e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor, transformaram em arremedo o que a vida humana poderia ser. Anseio ardentemente aliviar o mal, mas não posso, e também sofro.

Isso foi minha vida. Achei-a digna de ser vivida e vivê-la-ia de novo com a maior alegria se tal oportunidade me fosse oferecida."

Bertrand Russell, In: Autobiografia de Bertrand Russell 

Se tanto me dói que as coisas passem



"Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem."

A arte de perder



A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Não abdicar!



Renunciar ao mundo sem conhecê-lo, como uma freira — é terminar numa solidão estéril, talvez melancólica. Isso nada tem em comum com a solidão da vida contemplativa do pensador: quando ele escolhe essa solidão não quer de modo nenhum renunciar; seria para ele, pelo contrário, abandono, melancolia, destruição de si próprio dever persistir na "vida prática" — ele renuncia a esta, porque a conhece, porque se conhece. É assim que dá um mergulho em "sua água", é assim que conquista sua serenidade.


Os homens, por mais irrefletidos que sejam, sempre tiveram compaixão dos animais porque sofrem com a vida e não têm a energia necessária para voltar contra si próprios o aguilhão da dor e compreender o sentimento metafísico de sua existência; um sofrimento sem sentido encerra algo profundamente revoltante. É por isso que em diversos locais da terra vimos surgir hipóteses segundo a qual as almas dos homens culpados entrariam em corpos de animais e esse sofrimento absurdo e revoltante tomaria logo, pois, diante da justiça eterna, o sentido e o significado de uma expiação, de um castigo. Na verdade, é um duro castigo essa vida animal, dividida entre a fome e o desejo, especialmente se nela não descobrirmos qualquer sentido; e não podemos imaginar sorte mais penosa do que a da fera que no deserto carrega esse tormento que corrói mais que qualquer outro, uma fome raramente saciada e cuja satisfação é acompanhada de dor, seja na luta sangrenta com outros animais, seja na voracidade repugnante e na excessiva gula. Manter a vida nesse caso, agarrar-se a ela cegamente, loucamente, na ausência de qualquer ambição superior, longe de saber que se sofre um castigo, nem por que se é punido, mas na estupidez de um terrível desejo procurar esse castigo como uma felicidade, isto é o que é ser animal; e quando vemos a natureza inteira se acercar do homem é que ela procura dar-lhe a entender que ela necessita de ser libertada da maldição da existência animal e que é o homem que é o espelho que a natureza se estende a si mesma e no qual a vida deixa de parecer sem sentido e assume seu pleno significado metafísico. 

"Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste."



Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

E de novo acredito...



"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Obsessão



Os bosques para mim são como catedrais,
Com orgãos a ulular, incutindo pavor...
E os nossos corações, - jazidas sepulcrais,
De profundis também soluçam, n'um clamor.

Odeio do oceano as iras e os tumultos,
Que retratam minh'alma! O riso singular
E o amargo do infeliz, misto de pranto e insultos,
É um riso semelhante ao do soturno mar.
Ai! como eu te amaria, ó Noite, caso tu
Pudesses alijar a luz que te constéia,
Porque eu procuro o Nada, o Tenebroso, o Nu!

Que a própria escuridão é tambem uma téia,
Onde vejo fulgir, na luz dos meus olhares.
Os entes que perdi, - espectros familiares!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"

Súplica



Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

(...)
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Coisas tuas



Levo coisas tuas
para poder estar contigo
na distância.
Para nunca te perder a companhia,
mesmo não estando.
Levo gravado o teu gesto,
o pranto, o riso, e,
(ora inocente, ora picante),
o teu sorriso,
que é a tua expressão,
o teu maior encanto.
E levo um objecto,
teu pertence,
como se o espaço tivesse autoridade
e o tempo nos afastasse.

Como se fosse preciso...

Livro do Desassossego



“Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de fato à varanda da vida, mas não é bem desta vida. (...) Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem do futuro: sou uma saudade do presente, anônima, prolixa e incompreendida.”

Marineti Acadêmico



Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.


Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...

Les Feuilles Mortes


Oh! Eu quero que você lembre-se como
Os dias eram felizes quando éramos amigos.
Naqueles dias, a vida era bela,
E o sol mais quente do que hoje.
As folhas mortas coletadas com a pá
Você vê, eu não me esqueci ...
As folhas mortas coletadas com a pá,
Lembranças e arrependimentos também
E o vento do norte os carrega
Na fria noite do esquecimento.
Você vê, eu não me esqueci
A música que você cantou para mim.

Esta é uma música que nós gostamos.
Você, você me amava e eu te amava
E nós vivíamos os dois juntos,
Você que me amou, eu que te amei.
Mas a vida separa aqueles que se amam,
Lentamente, em silêncio
E o mar apaga na areia
Os passos dos amantes desunidos.

As folhas mortas coletadas com a pá,
Lembranças e arrependimentos também
Mas o meu amor silencioso e fiel
Sempre sorri e agradece a vida.
Eu te amei tanto, você estava tão bonita.
Como você acha que eu vou esquecer?
Naqueles dias, a vida era mais bonita
E o sol mais quente do que hoje.
Você era minha doce amiga
Mas eu lamento que nada regressará
E a música que você cantou,
Sempre, sempre vou ouvir!


Timidez



Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

Despedida




Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: 
quero solidão. 

Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
E como o conheces ? - me perguntarão. - 
Por não Ter palavras, por não ter imagem. 
Nenhum inimigo e nenhum irmão. 

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada. 
Viajo sozinha com o meu coração. 
Não ando perdida, mas desencontrada. 
Levo o meu rumo na minha mão. 

A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação ... 
Talvez eu morra antes do horizonte. 
Memória, amor e o resto onde estarão? 

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão ! 
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )

Quero solidão. 

Confissão



De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei 
que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. 
Sinto colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Viagem



"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."