O Amor



Não há para mim outro amor nem tardes limpas
A minha própria vida a desertei
Só existe o teu rosto geometria
Clara que sem descanso esculpirei.

E a noite onde sem fim me afundarei.


Sophia de Mello Bryner Andresen

Há cidades acesas na distância



Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen

A pálida luz da manhã de Inverno




A pálida luz da manhã de Inverno,
O cais e a razão
Não dão mais esperança, nem uma esperança sequer,
Ao meu coração.
O que tem que ser
Será, quer eu queira que seja ou que não.
No rumor do cais, no bulício do rio
Na rua a acordar
Não há mais sossego, nem um vazio sequer,
Para o meu esperar.
O que tem que não ser
Algures será, se o pensei; tudo mais é sonhar.


Fernando Pessoa

Incerteza


Incertos estes ventos
que fustigam e levam os meus cabelos
como incerta
a minha certeza de existir.
Bússola, percorro-me
sem encontrar o triângulo do meu norte.
Quase noite
neste entardecer incerto.
Esta incerteza de crepúsculo
trazido no gemido das aves tardias,
incertas estas horas,
gotas de tempo perdidas
em que sei que não vivo.
Busco-te náufraga de mim,
rochedo mudo e desejado
na praia da minha manhã.


Lilia Tavares