E depois virá a noite



Anda o teatro, com o seu engenho de tragédia,
a invadir-me o território do verso
juntando os timbres e as falas
do que é múltiplo fingindo ser uno.
E eu que faço? E eu que escrevo?
Sou a personagem que antecipa as personagens,
emprestando-lhes o corpo e o sentido
de que precisam para se fazerem ouvir.
Este é o magoado teatro das vozes
que me habitam e amotinam, é a teia
dos silêncios que se insubordinam
chamando por uma vez que lhes dê voz.
E eu quem sou? E eu que quero?
Quero a burilada paz de uma língua
que ainda ninguém tenha ousado falar
e que, por ser primordial e única,
possa comunicar com os astros e com
as ínfimas criaturas da secura da terra.
Um dia descerá o pano sobre tudo
quanto ousei dizer para desconsolo do que sei,
e depois virá a noite e, depois da noite,
a desnorteante luz astral que dá aos vivos
a ilusão de que sabem alguma coisa sobre a morte.