A Vida não me Desapontou



Não, a vida não me desapontou! Pelo contrário, todos os anos a acho melhor, mais desejável, mais misteriosa... desde o dia em que vejo a mim a grande libertadora, a idéia de que a vida podia ser experiência para aqueles que procuram saber, e não dever, fatalidade, duplicidade!... Quanto ao próprio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distração ou vagabundagem, para mim é um mundo de perigos, é um universo de vitórias onde os sentimentos heróicos têm a sua sala de baile. «A vida é um meio de conhecimento»; quando se tem este princípio no coração, pode viver-se não somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente! E quem, de resto, se ouvirá, portanto, a bem rir e a bem viver se não for primeiramente capaz de vencer e de guerrear?

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Agore eu sei




Quando eu era moleque, eu era alto demais
Eu falava bem alto para ser um homem
Eu dizia, EU SEI, EU SEI, EU SEI, EU SEI
Era no começo, era primavera
Então quando eu tinha meus 18 anos
Eu disse, EU SEI, é isso, desta vez EU SEI
E hoje, nos dias que me encontro
Olho a terra onde eu ainda contava os passos
E não sei o que isso se tornou
Aos 25 anos, eu conhecia tudo
O amor, as rosas, a vida, o dinheiro
Sim, o amor! Eu o conheci de todas as maneiras!
E felizmente, como os companheiros
Comi todo meu pão
E no meio de minha vida, ainda aprendi
O que aprendi posso contar com três ou quatro palavras:
O dia no qual alguém te ama, faz tempo bom
Não tem como dizer isso de melhor maneira, faz tempo bom
E é isso que ainda me surpreende na vida
Eu que estou no outono da minha vida
Esquecemos tantas noites de tristeza
Mas nunca de uma manhã de carinhos
Durante toda minha juventude eu quis dizer EU SEI
E somente quanto mais procurava menos eu sabia
Soaram sessenta badaladas no relógio
Estou ainda à janela, eu olho e me pergunto
Agora EU SEI, EU SEI O QUE NUNCA SOUBE
A vida, o amor, o dinheiro, os amigos e as rosas
A gente nunca conhece o som nem a cor das coisas
Isso é tudo o que sei!
Mas isso, eu SEI

A questão





A Questão
Eu não sei quem você pode ser
Eu não sei quem você espera

Procuro sempre te conhecer
E seu silêncio perturba meu silêncio

Eu não sei da onde vem a mentira
É de tua voz que se cala

Os mundos onde, contudo eu mergulho
São como um túnel que me assusta

De sua distância em relação à mim
Se perde sempre muitas vezes

E procurar te entender
É como correr atrás do vento

Eu não sei por que eu fico
Em um mar onde eu me afogo

Eu não sei por que eu fico
Em um ar que me sufoca

Você é o sangue da minha ferida
Você é o fogo da minha queimadura
Você é minha pergunta sem resposta
Meu grito mudo e meu silêncio...

Acordar-te



Quero acordar-te
da profundidade do teu sono,
da carícia tornada ferida,
do crepúsculo não vivido.
Buscaste-me quebrando
um a um os silêncios
das tuas mãos,
pisaste as estradas,
com asas chegaste
como o outono
discreto mas presente.
Sou a semente que se perdeu
entre as pedras do caminho
e o luar esquecido pela claridade
dos néons.
Soube-nos a chegada
a partida pela noite.
Se voltas,
porque tens de partir
na cauda dos ventos do norte?
O frio percorre-me
quando começa a sombra da tua ausência.


Lília Tavares

Vandalismo



Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.


Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.


Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...


E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

E depois virá a noite



Anda o teatro, com o seu engenho de tragédia,
a invadir-me o território do verso
juntando os timbres e as falas
do que é múltiplo fingindo ser uno.
E eu que faço? E eu que escrevo?
Sou a personagem que antecipa as personagens,
emprestando-lhes o corpo e o sentido
de que precisam para se fazerem ouvir.
Este é o magoado teatro das vozes
que me habitam e amotinam, é a teia
dos silêncios que se insubordinam
chamando por uma vez que lhes dê voz.
E eu quem sou? E eu que quero?
Quero a burilada paz de uma língua
que ainda ninguém tenha ousado falar
e que, por ser primordial e única,
possa comunicar com os astros e com
as ínfimas criaturas da secura da terra.
Um dia descerá o pano sobre tudo
quanto ousei dizer para desconsolo do que sei,
e depois virá a noite e, depois da noite,
a desnorteante luz astral que dá aos vivos
a ilusão de que sabem alguma coisa sobre a morte.




Um país de espera e promessa





I
Lagos onde reinventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente 

Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido
II
Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
Um puro dom total de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente 

III
Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
-Como pode meu ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?

IV 
Ou poderemos Abril ter perdido 
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?

Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente

E sua luz de prumo e de projecto?