Dois



“Não quero mais dormir, nunca mais, noite, esparsas

nuvens de estrelas sobre as planícies detidas,

sobre sinuosos canais, balouçantes e frios,

sobre os parques inermes, onde a bruma e as folhas ruivas

sentem chegar o outono e, reunidas, esperam

sua lei, sua sorte, como as pobres figuras humanas.”



E aos seus ouvidos sucessivos murmurava:

“Não quero mais dormir, nunca mais, quero sempre

mais tempo para os meus olhos, - vida, areia, amor profundo... –

conchas de pensamentos sonhando-se desertamente.”

E a noite dizia-me: “Vem comigo, pois, ao vento das dunas,

vem ver que lembranças esvoaçam na fronte quieta do sono,

e as pálpebras lisas, e a pálida face, e o lábio parado

e as livres mãos dos vagos corpos adormecidos!

Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas,

e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”


E a linguagem da noite era velhíssima e exata.

E eu ia com ela pelas dunas, pelos horizontes,

entre moinhos e barcos, entre mil infinitos noturnos leitos.

Meus olhos andavam mais longe do que nunca,

voavam, nem fechados nem abertos,

independentes de mim,

sem peso algum, na escuridão,

e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito,

na rasa solidão do tempo, e sem qualquer esperança

- qualquer.




Cecília Meireles

In: Poesia Completa

Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)