Memória


"A verdadeira arte da memória é a arte da atenção."


Soneto da espera




O coração tem que esperar, mais nada!


Inda que a espera exaure a vida inteira
até que emprenhe o banho de alvorada
a luz das águas remansosas da ribeira...

O amor tem que esperar essa chegada!
Inda que chegue ao nunca do amanhã,
até que soem os clarins da madrugada
no ouvido íntimo dos sinos da manhã...

Sonhos são deuses surdos, nada mais!
E para deuses não existem horizontes
em que o amor desponte eternamente...

Sonhos de amor são brisas sazonais...
Às vezes partem por alguns instantes
e às vezes vão embora para sempre...


Dois



“Não quero mais dormir, nunca mais, noite, esparsas

nuvens de estrelas sobre as planícies detidas,

sobre sinuosos canais, balouçantes e frios,

sobre os parques inermes, onde a bruma e as folhas ruivas

sentem chegar o outono e, reunidas, esperam

sua lei, sua sorte, como as pobres figuras humanas.”



E aos seus ouvidos sucessivos murmurava:

“Não quero mais dormir, nunca mais, quero sempre

mais tempo para os meus olhos, - vida, areia, amor profundo... –

conchas de pensamentos sonhando-se desertamente.”

E a noite dizia-me: “Vem comigo, pois, ao vento das dunas,

vem ver que lembranças esvoaçam na fronte quieta do sono,

e as pálpebras lisas, e a pálida face, e o lábio parado

e as livres mãos dos vagos corpos adormecidos!

Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas,

e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”


E a linguagem da noite era velhíssima e exata.

E eu ia com ela pelas dunas, pelos horizontes,

entre moinhos e barcos, entre mil infinitos noturnos leitos.

Meus olhos andavam mais longe do que nunca,

voavam, nem fechados nem abertos,

independentes de mim,

sem peso algum, na escuridão,

e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito,

na rasa solidão do tempo, e sem qualquer esperança

- qualquer.




Cecília Meireles

In: Poesia Completa

Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)


Sonho



... É um sonho esta vida, mas um sonho febril de um instante único. Quando dele se acorda, vê-se que tudo é só vaidade e névoa...

Eu Sou do Tamanho do que Vejo



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro-O Guardador de Rebanhos