Esperas




Não digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paixão antiga,
Dos nossos bons e cândidos abraços!


Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!


Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que não lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!


Espera… espera… ó minha sombra amada…
Vê que p’ra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!…


E se me perguntarem



"Se me perguntarem como estou, eis a resposta:


Estou indo. Sem muita bagagem.

Pesos desnecessários causam sempre

dores desnecessárias.


Esvaziei a mala, olhei no fundo dela, limpei, e estou indo…

preenche-la com coisas novas.

Sensações novas, situações novas, pessoas novas.

Tudo novo."



Mia Couto

Nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Em 1999, o autor recebeu o prêmio Vergílio Ferreira pelo conjunto de sua obra e, em 2007 o prêmio União Latina de Literaturas Românicas.






A DEMORA
O amor nos condena: 
demoras 
mesmo quando chegas antes. 
Porque não é no tempo que eu te espero. 

Espero-te antes de haver vida 
e és tu quem faz nascer os dias. 

Quando chegas 
já não sou senão saudade 
e as flores 
tombam-me dos braços 
para dar cor ao chão em que te ergues. 

Perdido o lugar 
em que te aguardo, 
só me resta água no lábio 
para aplacar a tua sede. 

Envelhecida a palavra, 
tomo a lua por minha boca 
e a noite, já sem voz 
se vai despindo em ti. 

O teu vestido tomba 
e é uma nuvem. 
O teu corpo se deita no meu, 
um rio se vai aguando até ser mar. 

Mia Couto, in " idades cidades divindades"

***
O AMOR, MEU AMOR
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in "idades cidades divindades"




***
DESTINO
à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"




***
FUI SABENDO DE MIM

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



***
PARA TI

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



***

IDENTIDADE

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Memória


"A verdadeira arte da memória é a arte da atenção."


Soneto da espera




O coração tem que esperar, mais nada!


Inda que a espera exaure a vida inteira
até que emprenhe o banho de alvorada
a luz das águas remansosas da ribeira...

O amor tem que esperar essa chegada!
Inda que chegue ao nunca do amanhã,
até que soem os clarins da madrugada
no ouvido íntimo dos sinos da manhã...

Sonhos são deuses surdos, nada mais!
E para deuses não existem horizontes
em que o amor desponte eternamente...

Sonhos de amor são brisas sazonais...
Às vezes partem por alguns instantes
e às vezes vão embora para sempre...


Dois



“Não quero mais dormir, nunca mais, noite, esparsas

nuvens de estrelas sobre as planícies detidas,

sobre sinuosos canais, balouçantes e frios,

sobre os parques inermes, onde a bruma e as folhas ruivas

sentem chegar o outono e, reunidas, esperam

sua lei, sua sorte, como as pobres figuras humanas.”



E aos seus ouvidos sucessivos murmurava:

“Não quero mais dormir, nunca mais, quero sempre

mais tempo para os meus olhos, - vida, areia, amor profundo... –

conchas de pensamentos sonhando-se desertamente.”

E a noite dizia-me: “Vem comigo, pois, ao vento das dunas,

vem ver que lembranças esvoaçam na fronte quieta do sono,

e as pálpebras lisas, e a pálida face, e o lábio parado

e as livres mãos dos vagos corpos adormecidos!

Vem ver o silencio que tece e destece ordens sobre-humanas,

e os nomes efêmeros de tudo que desce à franja do horizonte!

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”

Oh! Os nomes... – na espuma, na areia, no limite incerto dos mundos,

plácidos, frágeis, entregues à sua data breve,

irresponsáveis e meigos, boiando, boiando na sombra das almas,

suspiro da primavera na aresta súbita dos meses...”


E a linguagem da noite era velhíssima e exata.

E eu ia com ela pelas dunas, pelos horizontes,

entre moinhos e barcos, entre mil infinitos noturnos leitos.

Meus olhos andavam mais longe do que nunca,

voavam, nem fechados nem abertos,

independentes de mim,

sem peso algum, na escuridão,

e liam, liam, liam o que jamais esteve escrito,

na rasa solidão do tempo, e sem qualquer esperança

- qualquer.




Cecília Meireles

In: Poesia Completa

Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952)


Sonho



... É um sonho esta vida, mas um sonho febril de um instante único. Quando dele se acorda, vê-se que tudo é só vaidade e névoa...

Eu Sou do Tamanho do que Vejo



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro-O Guardador de Rebanhos

Irmandade




"Sou homem:duro pouco,
e é enorme a noite.Porém olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
também sou escrita,
e neste mesmo instante
alguém me soletra."

Octavio Paz

Ecce Homo



Sei minha origem: sou a chama
e ao iluminar me consumo,
e o que toco se inflama,
e deixo cinzas e fumo.
Certamente sou chama.

Friedrich Nietzsche
in Poesias (1871-1888) 

O Sonho de uma Sombra




A sorte dos mortais

cresce num só momento;

e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.


Efêmeros! que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

tradução: Péricles Eugênio

Meditação sobre Ruínas




De um lado e outro do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso.Sinto

Colar-se-me ás costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.

Nuno Júdice

Emigrantes



Esperemos o embarque, irmão.
Chegamos sem esperança,
só com relíquias de séculos
na palma da mão.

Pela terra endurecida,
não há campo que aproveite.
Mesmo os rios vão morrendo
pela solidão.

Não sofras por teres vindo.
Alguém nos mandou de longe
para ver como ficava
um rosto humano banhado
de desilusão.

Olhemos esses desertos
onde é impossível deixar-se
mesmo o coração.

Ah, guardemos nossos olhos
duráveis como as estrelas
e seguramente secos
como as pedras do chão:

Iremos a outros lugares,
onde talvez haja tempo,
misericórdia, viventes,
amor, ocasião.

Esperemos, esperemos.
Relógios além das nuvens
moem as horas e as lágrimas
para a salvação.
  
Cecilia Meireles
In: Retrato Natural

Discurso aos infiéis




Por que chorar de saudade,
se me resta o longo mar sonoro e vário,
a flor perfeita, a estrela certa,
e a canção que o pássaro vai bordando no vento?


Por que chorar de saudade,
se me resta um jardim de palavras,
e os bosques do eco
e estes caminhos da memória me pertencem?


Por que chorar pelo que me levais,
se é maior o que fica:
se a sombra em que vos recordo é mais bela que o vosso vulto,
se em vós morreis e em mim ressuscitais?


É melhor não ficar jamais com quem nos ama.
O amor é um compromisso de grandeza,
o amor é uma vigília incansável
e aparentemente vã.


Passai, parti, deixai-me, vós que, no entanto,
parecestes um momento mais adoráveis
que o mar, que a flor, que a estrela,
que a canção que um frágil pássaro vai bordando no vento...


Éreis o vento, apenas.

Cecília Meireles






"O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado.É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes."
Rainer Rilke



Desdobramento



Por tanta vida que transporto no meu sangue
vacilo
no vasto Inverno.

E de repente,
como por uma fonte que se solta
na estepe,
uma ferida que no sonho
se reabre,

nascem pensamentos
no desértico castelo da noite.

Criatura de fábulas, pelas mudas
habitações onde se consomem as lâmpadas
esquecidas,
transcorre leve uma palavra branca:
voam pombas desde a açoteia
como numa paisagem marítima.

Bondade, regressas a mim:

desfaz-se o Inverno no desbordamento
do meu sangue mais puro,
o pranto ainda pode ser docemente nomeado perdão.


Antonia Pozzi
-Itália-

O que não se recorda



Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.
Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.
Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.
O silêncio
pôde mais que o esforço.
Anoitecia
para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.

Luís Rosales

(1910-1992)Espanha



Todos sabem... E não sabem
que a Luz é tísica,
e a Sombra é gorda
E não sabem que o Mistério sintetiza...
que ele é a corcova
musical e triste que denuncia à distância
o passo meridiano dos limites aos Limites.

Eu nasci num dia
em que Deus ficou enfermo,
grave.

(César Vallejo; De Los Heraldos Negros, 1918)


E o médico perguntou:
— O que sentes?
— Sinto lonjuras, doutor.
Sofro de distâncias.


Caio Fernando Abreu

Se da Amada Estás Ausente



Se da Amada estás ausente
Como o Oriente do Ocidente,
O coração transpõe todo o deserto;
Só, por toda a parte acha o seu caminho certo.
Para quem ama Bagodá é aqui perto.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Divã Ocidental-Oriental"
Tradução de Paulo Quintela 


Carta aos Mortos



Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há recordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.
Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.
Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.
Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.
Nada mudou em essência.
Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.

Afonso Romano de Sant'ana

Devaneios Reveladores



Na verdade, se nos fosse dado penetrar com os olhos da carne na consciência dos outros, julgaríamos com mais segurança um homem pelo que devaneia do que pelo que pensa. O pensamento é dominado pela vontade, o devaneio não. O devaneio, que é absolutamente espontâneo, toma e conserva, mesmo no gigantesco e no ideal, a figura do nosso espírito. Não há coisa que mais directa e profundamente saia da nossa alma do que as nossas aspirações irreflectidas e desmesuradas para os esplendores do destino. Nestas aspirações é que se pode descobrir o verdadeiro carácter de cada homem, melhor do que nas ideias compostas, coordenadas e discutidas. As nossas quimeras são o que melhor nos parece. Cada qual devaneia o incógnito e o impossível, conforme a sua natureza.

Victor Hugo, in 'Os Miseráveis'